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A conversa do interior

Enquanto esperava meu visto passei uns 2 meses em Carlos Barbosa. Minha cidade natal. Infelizmente esses dois meses serviram pra erradicar qualquer sentimento nostálgico que eu poderia inda sentir. O problema? As pessoas é claro.

O que vou falar aqui se aplica diretamente a Carlos Barbosa. Mas acho que não somos uma exceção. Somos a regra. Essa crítica se aplica a maioria das cidades do interior.

Conversei com vários indivíduos, ou melhor, fui vítima da audição. E formei a seguinte opinião:

  • O único assunto dos velhos é o seu passado.
  • O único assunto dos adultos é a vida alheia.
  • O único assunto dos jovens é festa e quem comeu quem.

Benjamin Franklin disse certa vez que existem 3 tipos de pessoas. As que falam sobre ideias, as que falam sobre eventos, e as que cuidam da vida dos outros. Minha visão é que você só escolhe o último grupo quando lhe falta material para o primeiro e o segundo.

Quem vai preferir falar de quem está namorando com quem quando poderia estar falando sobre as revoluções em potencial do CRISPR-CAS-9? Ou falar do filho do vizinho que apronta ao invés de falar sobre o que está acontecendo na Síria ou na Coreia do Norte?

O primeiro prognóstico é a falta de educação. Falta educação. Mas o quadro está incompleto. Existem muitas pessoas educadas que se enquadram no problema também. E você não precisa ser um especialista pra conversar sobre assuntos melhores. Eu não preciso ser um biólogo pra falar sobre CRISPR, só preciso me empolgar com a realidade que chega. Não preciso ser um iman pra ser assiduamente opinado sobre o Islamismo, só preciso me preocupar com o mundo que chega.

As pessoas não tem opinião sobre nada. Não sabem de nada. Vivem numa bolha. Acham que não tem lugar no mundo la fora. “Tudo o que importa é minha família”. Acho que a raiz é uma falta de esperança.

Sobre o que falar em uma sociedade se o momentum aponta pra vida alheia? Falar da vida alheia. Quando a maioria é louca a sanidade é crime. Como a sociedade inteira está tão afundada nessa mediocridade não existem exemplos pra salvar. O resultado é uma conversa nos modelos da idade média.

Essa angústia é latente pra mim pois eu não sentia esse problema em outras cidades que morei como Florianópolis e Joinville. Convivi com vários indivíduos incríveis e meu círculo social dificilmente abordava assuntos como os que vejo aqui. Minha visão é que nas cidades grandes os números salvam. Não é que a educação é necessariamente melhor lá. Mas existem exceções que chegam para elas se juntarem e criar uma comunidade.

Existem dissidentes aqui também. Alguns indivíduos cujas mentes servem como um bálsamo nas raras ocasiões que os encontramos.

Nos meus anos nas metrópoles de Santa Catarina criei dois meetups, participei de vários outros. Fui a vários eventos de software. Palestrei em vários deles. Quando tentei criar um simples meetup aqui em Carlos Barbosa praticamente não consegui suporte. Quando tento introduzir um assunto menos primitivo a resposta é o silêncio ou a rotulação como “diferentão”.

Se você é um dissidente também e está em uma cidade assim, minha primeira recomendação é que vá pra uma cidade grande. Vai se surpreender como pode ser interessante e prazerosa uma conversa do século vinte e um. Se não puder tente ser a diferença, as vezes o que falta é apenas uma faísca pra causar uma grande chama. Na falta de exemplos seja ele.